série de pinturas de algumas lembranças
serie di dipinti di alcuni ricordi
series of paintings of some memories
Benedita 1 . PT Éramos em seis: pai, mãe e meus três irmãos. Fomos, por alguns anos, no sitio do Seu Rachid. Logo fora da cidade, não era longe. Era um encontro, em junho, de uma parte da família. A festa junina, que comemora em origem, a colheita e o início do inverno. Nós nos encontrávamos para festejar a vida, encontrar afetos, dividir a comida, conversar e brincar muito. Me lembro que nós, crianças de várias idades, fomos brincar fora da casa, onde tinha um bosque. Caminhando eu ouvi uma música e parei. Tinha um campo de alguma erva ou capim e fiquei parada olhando o campo que me parecia imenso e ouvindo a música. Eu tinha certeza que eram indígenas que estavam fazendo alguma festa. A música aumentava e eu me emocionava certa de que eles estavam mais próximos e eu poderia vê-los festejando. Naquele dia eles não apareceram e me lembro que eu esperava essa festa com emoção, dessa vez eles virão, eu pensava e chegando lá eu ficava escutando a música mas não os via. Passaram-se muitos anos, eu já com cerca de 20 anos, tinha ido a USP (Universidade de São Paulo) participar de um curso. No final do dia, fui esperar o ônibus e escutei aquela música. Perguntei a um rapaz que esperava o ônibus o que eram aqueles sons ritmados que aumentavam e diminuíam com precisão e harmonia. Ele me respondeu: são os sapos. Passaram-se mais ou menos 40 anos dessa minha descoberta e consequente desilusão. Assistindo a uma conversa sobre o “Eu” entre psicólogos junguianos e um indígena, feita provavelmente na época da pandemia de COVID, ouvi o convidado dizer sobre como ele esquecia o “Eu”. Quando ele escuta os sapos cantarem, ele canta com eles, ele vira sapo e começou a cantar a música que ouvi quando pequena. Finalmente vi o indígena que eu esperava ver desde aquele tempo.
Benedita 1 . IT Eravamo in sei: mio padre, mia madre e i miei tre fratelli. Per alcuni anni, andavamo alla fattoria di Signor Rachid. Era appena fuori città, non lontano. Era un raduno di famiglia a giugno. La festa di giugno, che originariamente celebra il raccolto e l’inizio dell’inverno. Ci riunivamo per celebrare la vita, scambiarci affetto, condividere il cibo, parlare e giocare molto. Ricordo che noi bambini, di età diverse, andammo a giocare fuori casa, dove c’era un boschetto. Mentre camminavamo, sentii della musica e mi fermai. C’era un campo di erba o di qualche pianta aromatica, e rimasi lì a guardare il campo, che mi sembrava immenso, e ad ascoltare la musica. Ero sicura che fossero indigeni che stavano celebrando qualcosa. La musica si fece più forte, e mi emozionai, certa che fossero più vicini e che li vedessi festeggiare. Quel giorno non si presentarono, e ricordo di aver aspettato quella festa con eccitazione, pensando: “Questa volta verranno”, e quando arrivai continuai ad ascoltare la musica ma non li vidi. Passarono molti anni, avevo circa 20 anni, ed ero andata all’USP (Università di San Paolo) per seguire un corso. Alla fine della giornata, andai ad aspettare l’autobus e sentii quella musica. Chiesi a un giovane che aspettava l’autobus cosa fossero quei suoni ritmici, che aumentavano e diminuivano con precisione e armonia. Mi rispose: “Sono le rane”. Sono passati circa 40 anni da quella scoperta e dalla successiva disillusione. Guardando una conversazione sul “Sé” tra psicologi junghiani e una persona indigena, probabilmente tenutasi durante la pandemia di COVID, ho sentito l’ospite dire di aver dimenticato il “Sé” quando sente le rane cantare, canta con loro, diventa una rana, e ha iniziato a cantare la canzone che avevo sentito da bambina. Finalmente, ho visto la persona indigena che aspettavo di incontrare da allora.
Benedita 1 . EN There were six of us: my father, mother, and my three siblings. For a few years, we went to Sr. Rachid’s farm. It was just outside the city, not far. It was a gathering in June for part of the family. The June festival, which originally celebrates the harvest and the beginning of winter. We met to celebrate life, find affection, share food, talk, and play a lot. I remember that we, children of various ages, went to play outside the house, where there was a grove. Walking, I heard music and stopped. There was a field of some kind of grass or herb, and I stood there looking at the field, which seemed immense to me, and listening to the music. I was sure it was indigenous people having some kind of celebration. The music grew louder, and I became emotional, certain that they were closer and that I could see them celebrating. That day they didn’t show up, and I remember waiting for that party with excitement, thinking, “This time they’ll come,” and when I arrived I kept listening to the music but didn’t see them. Many years passed, I was about 20 years old, and I had gone to USP (University of São Paulo) to participate in a course. At the end of the day, I went to wait for the bus and heard that music. I asked a young man waiting for the bus what those rhythmic sounds were, increasing and decreasing with precision and harmony. He answered me: “They’re the frogs.” About 40 years passed since that discovery and subsequent disillusionment. Watching a conversation about the “Self” between Jungian psychologists and an indigenous person, probably held during the COVID pandemic, I heard the guest say how he forgot the “Self.” When he hears the frogs singing, he sings with them, he becomes a frog, and he began to sing the song I heard as a child. Finally, I saw the indigenous person I had been waiting to see since that time.

aquarela sobre papel / acquarello su carta / watercolor on paper
30 x 40 cm
Benedita 2 . PT Meu pai era muito ligado a terra e a agricultura. Era uma pessoa alegre e muito criativa, adorava brincar com as pessoas. Minha mãe também era assim. Quando nos mudamos para uma casa com um jardim grande, ele plantou várias coisas: duas plantas de café que ele recolheu, secou, torrou, moeu e saboreou. Dois ipês amarelos que florescem ainda hoje. Plantou muitas margaridas, as mais lindas que já vi e plantou também tomates e cenouras. Um dia ele me chamou no jardim e me disse para puxar uma planta verde, linda. Eu me recusei, ela é tão linda! E como ele insistia com um sorriso, acabei puxando a planta que ele indicou. Descobri assim de onde vem a cenoura.
Benedita 2 . IT Mio padre era molto legato alla terra e all’agricoltura. Era una persona allegra e molto creativa, amava stare in compagnia. Anche mia madre era così. Quando ci trasferimmo in una casa con un grande giardino, piantò diverse cose: due piante di caffè che raccolse, essiccò, tostò, macinò e gustò. Due alberi di ipê gialla che fioriscono ancora oggi. Piantò molte margherite, le più belle che abbia mai visto, e anche pomodori e carote. Un giorno mi chiamò in giardino e mi disse di estirpare una bellissima pianta verde. Mi rifiutai, era troppo bella! Ma lui insistette con un sorriso, e finii per estirpare la pianta che mi aveva indicato. Fu così che scoprii da dove vengono le carote.
Benedita 2 . EN My father was very connected to the land and agriculture. He was a cheerful and very creative person, he loved to play with people. My mother was also like that. When we moved to a house with a large garden, he planted several things: two coffee plants that he harvested, dried, roasted, ground, and enjoyed. Two yellow ipê trees that still bloom today. He planted many daisies, the most beautiful I’ve ever seen, and he also planted tomatoes and carrots. One day he called me into the garden and told me to pull a beautiful green plant. I refused, it’s so beautiful! And as he insisted with a smile, I ended up pulling the plant he indicated. That’s how I discovered where carrots come from.

guache sobre papel / guache su carta / guache on paper
30 x 40 cm
Benedita 3 . PT Eu, desde muito pequena gostava de fotografar, meu pai também. Ao contrário dele, eu gostava de fotos meio estranhas, fotografava o chão de asfalto quando viajávamos de carro, as pontas do hibisco depois de podado, uma vez pedi para meu irmão Andre pegar um punhado de areia com as duas mãos e deixar escorrer devagar e eu ia fotografando. De pessoas, gostava e gosto ainda de fotos espontâneas, sem posa, mas com pose pode ser divertido também. Uma vez flagrei minha mãe chegando em casa num dia de chuva. Coloquei pedrinhas coloridas no chão só para fazê-la feliz. Ela gostou. Essa pintura terminei no dia do seu aniversário, dia 5 de janeiro de 2026. Ela se foi dia 7 de setembro de 2020.
Benedita 3 . IT Fin da piccola mi piaceva fotografare, e anche a mio padre. A differenza sua, a me piacevano le foto un po’ strane. Ho fotografato l’asfalto quando viaggiavamo in macchina, le punte degli ibisco dopo la potatura. Una volta ho chiesto a mio fratello Andre di prendere una manciata di sabbia con entrambe le mani e di lasciarla cadere lentamente mentre la fotografavo. Mi piacevano, e mi piacciono ancora, le foto spontanee di persone, senza pose, ma anche le pose possono essere divertenti. Una volta ho immortalato mia madre mentre tornava a casa in una giornata di pioggia. Ho messo dei sassolini colorati per terra solo per farla felice. Le è piaciuto. Ho finito questo quadro il giorno del suo compleanno, il 5 gennaio 2026. È deceduta il 7 settembre 2020.
Benedita 3 . EN I, from a very young age, liked to take photographs, and so did my father. Unlike him, I liked somewhat strange photos. I photographed the asphalt ground when we traveled by car, the tips of the hibiscus after pruning. Once I asked my brother Andre to take a handful of sand with both hands and let it slowly trickle down while I photographed it. I liked, and still like, spontaneous photos of people, without posing, but posing can be fun too. Once I caught my mother arriving home on a rainy day. I put colorful small stones on the ground just to make her happy. She liked it. I finished this painting on her birthday, January 5th, 2026. She passed away on September 7th, 2020.

aquarela e guache sobre papel / acquearello e gouache su carta / watercolor and gouache on paper
30 x 40 cm
Benedita 4 . PT. Como já disse antes, meus pais gostavam de brincar com as pessoas. Era meu aniversário, acho que de 11 anos e eu queria muito uma bicicleta apesar de não saber ainda andar. Ele havia me dito que não poderia me dar a bicicleta e estava tudo bem pra mim, sem problemas, uma hora vai dar, ou não! No dia do meu aniversário, depois do jantar, ele me disse que tinha um pássaro muito bonito no quintal. Achei estranho pois era noite e os pássaros se recolhem cedo, minha mãe e minha tia Ilda também entram na brincadeira e me disseram para ir ver, era um pássaro lindo! Fui. E estava lá minha bicicleta azul! E claro que eu tinha que aprender a usá-la súbito! Fiquei até tarde no quintal tentando. A lua surgiu e eu imaginava que ia, de bicicleta, até ela. E olhando fixo pra lua, aprendi a andar de bicicleta.
Benedita 4 . IT. Come dicevo prima, ai miei genitori piaceva giocare con le persone. Era il mio compleanno, credo avessi 11 anni, e desideravo tanto una bicicletta, anche se non sapevo ancora andare in bicicletta. Mi disse che non poteva darmela e per me andava bene, nessun problema, prima o poi sarebbe successo, o forse no! Il giorno del mio compleanno, dopo cena, mi disse che c’era un uccellino bellissimo in giardino. Mi sembrò strano perché era notte e gli uccelli di solito vanno a dormire presto. Mia madre e mia zia Ilda si unirono allo scherzo e mi dissero di andare a vederlo perché era davvero un uccellino bellissimo! Ci andai. E lì c’era la mia bicicletta blu! E naturalmente, dovetti imparare subito ad usarla! Rimasi sveglia fino a tardi in giardino a provare. Apparve la luna e immaginai di raggiungerla in bicicletta. E fissando intensamente la luna, imparai ad andare in bicicletta.
Benedita 4 . EN. As I said before, my parents liked to joke with people. It was my birthday, I think I was 11, and I really wanted a bicycle even though I didn’t know how to ride yet. He had told me he couldn’t give me the bicycle and that was fine with me, no problem, eventually it would happen, or maybe not! On my birthday, after dinner, he told me there was a very beautiful bird in the backyard. I thought it was strange because it was night and birds usually go to their roost early. My mother and my aunt Ilda joined in the joke and told me to go see it; it was a beautiful bird! I went. And there was my blue bicycle! And of course, I had to learn how to use it immediately! I stayed up late in the backyard trying. The moon appeared, and I imagined I would ride my bicycle to it. And staring intently at the moon, I learned to ride a bicycle.

aquarela e guache sobre papel / acquearello e gouache su carta / watercolor and gouache on paper
30 x 40 cm
Benedita 5 . PT. Se chamava Sonia Junko Yamakawa. Era nossa vizinha quando morávamos na Vila Mariana. Era casada com um maestro de orquestra e não tinham filhos. Foi a minha primeira professora de música. Me dava aulas de piano e tenho até hoje o livro que ela montou pra mim com os exercícios e as traduções que ela escrevia dos títulos para eu poder entender. Dona Sonia, sempre que ia ao Japão, me mandava um cartão postal ou me trazia algum presente, entre esses um livro de origami maravilhoso. Quando me aparece um piano na frente, toco sempre um dos estudos daquele tempo.
Benedita 5 . IT . Si chiamava Sonia Junko Yamakawa. Era la nostra vicina di casa quando vivevamo a Vila Mariana. Era sposata con un direttore d’orchestra e non avevano figli. Fu la mia prima insegnante di musica. Mi diede lezioni di pianoforte e conservo ancora il libro che preparò per me con gli esercizi e le traduzioni dei titoli che scrisse per farmeli capire. Dona Sonia, ogni volta che andava in Giappone, mi mandava una cartolina o mi portava un regalo, tra cui un meraviglioso libro di origami. Ogni volta che mi trovo davanti un pianoforte, suono sempre uno degli studi di quel periodo.
Benedita 5 . EN . Her name was Dona Sonia Junko Yamakawa. She was our neighbor when we lived in Vila Mariana. She was married to an orchestra conductor and they had no children. She was my first music teacher. She gave me piano lessons, and I still have the book she put together for me with the exercises and the translations she wrote of the titles so I could understand them. Dona Sonia, whenever she went to Japan, would send me a postcard or bring me a gift, among them a wonderful origami book. Whenever a piano appears before me, I always play one of the studies from that time.

aquarela e guache sobre papel / acquearello e gouache su carta / watercolor and gouache on paper
30 x 40 cm
Benedita 6 . PT. Minha avó materna se chamava Linda, morava em Santos, cidade de mar, onde nasceu minha mãe. Íamos quase sempre passar por lá o Natal. Uma recordação muito nítida que tenho de lá é o jardim, com uma variedade de formas, perfumes e cores, o chão de caquinhos… Ela morou em duas casas na mesma rua, nesse desenho coloquei um pouco de cada uma. Me lembro de estar sentada na varanda com lápis de cor e papel. Eu queira inventar uma cor! Então, eu riscava no papel várias cores e ia ao jardim ver se aquela cor existia já ou não. Eu encontrava sempre uma cor que correspondia àquela que eu pensava ter inventado e voltava feliz a tentar novas combinações. E continuo ainda assim.
Benedita 6 . IT . Mia nonna materna si chiamava Linda; viveva a Santos, una città di mare, dove è nata mia madre. Trascorrevamo quasi sempre il Natale lì. Un ricordo molto vivido che ho di quel luogo è il giardino, con la sua varietà di forme, profumi e colori, il pavimento piastrellato… Ha vissuto in due case sulla stessa strada; in questo disegno ho messo un po’ di ciascuna. Ricordo che sedevo in veranda con matite colorate e carta. Volevo inventare un colore! Così disegnavo vari colori sulla carta e andavo in giardino per vedere se quel colore esisteva già o no. Trovavo sempre un colore che corrispondeva a quello che pensavo di aver inventato e tornavo felicemente a provare nuove combinazioni. E lo faccio ancora oggi.
Benedita 6 . EN . My maternal grandmother’s name was Linda; she lived in Santos, a seaside town, where my mother was born. We almost always spent Christmas there. A very vivid memory I have of that place is the garden, with its variety of shapes, scents, and colors, the tiled floor… She lived in two houses on the same street; in this drawing, I put a little bit of each. I remember sitting on the porch with colored pencils and paper. I wanted to invent a color! So I drew various colors on paper and went into the garden to see if that color already existed. I always found a color that matched the one I thought I’d invented, and I happily returned to try new combinations. And I still do that today.

aquarela e guache sobre papel / acquearello e gouache su carta / watercolor and gouache on paper
30 x 40 cm